Sobre as redes sociais, a dependência e o presente

social-media5Decidi viver cerca de um mês sem usar o telemóvel e o computador para abrir o Facebook ou o Instagram.

Fi-lo enquanto retiro mental auto imposto, para procurar viver exclusivamente a realidade presente, sem a ação das redes sociais, como experiência pessoal e social. Interessava-me analisar este fenómeno de fora, como um espetador, e experienciar como isso me afetava a mim e às pessoas que me rodeavam.

 

Mas porquê?

Dava por mim muitas vezes a olhar em volta e a observar comportamentos sociais que me pareciam completamente desajustados da realidade onde estavam inseridos – via pessoas absorvidas pelos telemóveis que tinham na mão, pela vida que viviam online e por conversas faladas por teclados minúsculos – independentemente da situação em que se encontrassem. Comecei a questionar-me até que ponto as redes sociais me afetavam a mim e às minhas relações pessoais e sociais e até que ponto estava eu inconsciente disso. Sabia que desempenhavam certamente um papel, que julgava estar seguro sob o meu controlo, mas sem certeza. Não me bastou ler sobre isso – queria testá-lo. Propus-me por isso a avaliar essa experiência em mim mesmo, usando-me a mim próprio enquanto sujeito de estudo – no que se revelou uma experiência muito mais complexa do que inicialmente esperava.

Estudar o fenómeno das redes sociais é como estudar uma epidemia – nos últimos dez anos passaram de uma novidade crescente a um vicio descontrolado. O uso generalizado de Smartphones alterou completamente o nosso comportamento físico e mental. Alterou as nossas interações sociais e o nosso comportamento individual. E fê-lo tão rapidamente que ainda não houve tempo para estudar em larga escala os efeitos do seu uso a longo prazo na psique humana.

Desde o primeiro Iphone, o Smartphonne tornou-se tão basilar na nossa sociedade que se tornou praticamente inquestionável. Conhecer alguém sem Smartphone é como encarar um membro de uma espécie em vias de extinção. É simplesmente um dado adquirido – agora quase à nascença – e receber o primeiro Smartphone tornou-se num ritual familiar de passagem à vida adulta. É parte de nós, e está connosco em todos os momentos – na mão, no bolso, quando cozinhamos, dormimos, trabalhamos ou até quando vamos à casa de banho, nunca está longe. Se uma espécie extraterrestre descesse hoje à terra e observasse como nos comportamos iria pensar que o Smartphone é parte do corpo humano, tão instituível como um membro.

A tentação é grande: desde que temos Smartphones que levamos no bolso da frente nada mais nada menos que todo o conhecimento da humanidade, acessível em qualquer momento. Nada nos é vedado se levarmos um Smartphone no bolso. E levar a mão ao bolso não custa nada… Então porque não? A partir dele podemos aceder a tudo – respostas certas e erradas para todas as perguntas que tenhamos, toda a indústria do entretenimento e algo revolucionário: informações pessoais, contactos e fotografias de todas as pessoas que conhecemos e não conhecemos – o Facebook é hoje a app #1 mais utilizada nos Smarthones do mundo e o site #1 mais visitado da Internet.

À nossa disposição está um instrumento que nos dá mais informação e conhecimento do que a que estava disponível a Einstein quando deduziu a Teoria da Relatividade e mais poder de comunicação do que tinha o Presidente dos Estados Unidos há 20 anos atrás. Podemos fazer videochamadas para todo o mundo, marcar viagens, partir corações, encontrar empregos, tirar fotografias e encomendar pizza – tudo no mesmo ecrã.

Parar para pensar na rapidez da evolução tecnológica recente tem tanto de fascinante quanto de assustador – porque ela é inegavelmente viciante. Apercebemo-nos só agora que a mesma tecnologia que prometia unir todo o mundo, em consumo excessivo, tornou muitos de nós em pessoas socialmente inadaptadas, ansiosas e infelizes – a vida online é um espelho deformado da nossa vida real, que nos afeta profundamente e que se reflete diariamente em múltiplos cenários – grupos de pessoas num espaço publico em silêncio entre si a olhar para o telemóvel – pessoas ao telemóvel e a conduzir – pessoas que valorizam mais a sua expressão online que a real – pessoas completamente incapazes de disfrutar do momento onde estavam só para fazerem uma publicação desse mesmo momento. Alguma vez acordaram e a primeira coisa que pensaram foi ver o telemóvel?

E se houvesse uma droga que causasse isto? E se houvesse uma droga que nos causa esta ansiedade de consumo e nos leva a agir de uma forma completamente desajustada da realidade? O que pensaríamos dessa droga que nos leva a olhar especados para o objeto que está na nossa mão incessantemente, desligados de tudo o resto?

E mais do que isso – na ânsia de consumo – pode ser que o que consumimos do telemóvel dite e influencie a nossa vida? Que o conteúdo das redes sociais nos leve a viver uma vida com um significado diferente da que lhe atribuímos, pelo que absorvemos delas?

Passei um mês a estudar o trabalho de psicólogos, sociólogos, antropólogos e jornalistas, e entrelacei nesse estudo a minha experiência pessoal para procurar responder a uma pergunta simples – Como é que as redes sociais afetavam o meu próprio cérebro?

 

O negócio da atenção 

As redes sociais funcionam no nosso cérebro essencialmente como uma fonte de entretenimento. Aceitamos trocar minutos da nossa atenção por recompensas visuais luminosas na forma de notificações, likes ou publicações. É lá que buscamos, essencialmente, uma distração.

No entanto as redes sociais foram criadas por engenheiros com o objetivo de otimizar ao máximo a captura da nossa atenção, por um motivo simples: são empresas. Mas as redes sociais não são empresas quaisquer – atualmente o Facebook é a quinta empresa com maior valor de mercado do mundo, com valores superiores ao PIB de alguns países, à frente de todos os bancos, e apenas com a Apple, Microsoft, Amazon e Google à sua frente (todas elas empresas de tecnologia).

 

Mas o mais interessante é que todas as redes socias são aparentemente desprovidas do conceito de pagar para as usar. A maior parte das redes sociais são de livre acesso, grátis, e anunciam-no como uma das suas bandeiras. Como é então possível que valham mais do que empresas que abertamente cobram pelos seus produtos e serviços?

 

De uma forma subtil, mas cada vez mais acesa, estas empresas lucram com a obtenção – voluntariamente oferecida pelos utilizadores – das nossas características e gostos pessoais e venda das mesmas para criar publicidade personalizada. Um conceito verdadeiramente genial. Porque haveríamos de nos queixar se nos oferecem exatamente aquilo que procuramos? Não há argumentos contra.

 

Mas atentando em “otimizar ao máximo a captura da nossa atenção” – porquê fazê-lo? O conceito de economia da atenção é relativamente novo, mas simples: quanto mais atenção uma plataforma capturar, mais eficiente é na publicidade que oferece, o que permite cobrar mais a quem vende. É um ciclo alimentado por um número cada vez maior de possibilidades e funcionalidades que as redes sociais oferecem.

 

Por isso, enquanto plataforma, os métodos utilizados por estas empresas são os de tornar as redes sociais o mais viciantes possível, com vista a uma competitividade cada vez maior. E a forma mais fácil de entender como o fazem é imaginar uma shot machine, nos casinos: carregamos num botão na esperança de obter uma recompensa. Podemos obter ou não. Se não obtivermos voltamos mais tarde. É o mesmo processo quando abrimos uma rede social: queremos um like, um comentário ou um refresh de publicações. A expectativa de obter algo novo alimenta o vício. Vai sempre haver uma pequena recompensa, eventualmente, por isso voltamos.

 

Ao mesmo tempo há a questão social: se alguém nos dá algo, temos a pressão de devolver. Se alguém sabe que vimos a sua mensagem, ou comenta algo, somos socialmente encorajados a responder. E isso obriga-nos depois a voltar para visualizar uma potencial resposta. O objetivo das redes sociais passou a ser o de ligação permanente e não o de uma plataforma de uso regular. Os números são assustadores – em média os Millennials pegam no telemóvel 157 vezes por dia, e passam nele em média 145 minutos – numa ânsia de permanecer ligados e socialmente aceites. É um vicio visual.

Sem querer, as redes sociais, tocaram na nossa ferida mais profunda: o medo. O FOMO – Fear of Missing Out – é uma ansiedade social crescente, que consiste na preocupação constante de poder estar a perder algo que esteja a acontecer noutro sítio – neste caso uma interação social virtual. A nossa necessidade, normal e natural, de criar relações com outras pessoas, sucumbiu ao medo de as perder, numa procura desmedida encontrada nas redes sociais e que afeta profundamente as nossas relações reais. Estamos constantemente preocupados com o que pode estar a acontecer dentro do nosso bolso. Será que respondeu? Será que alguém gostou da minha publicação? Será que alguém publicou algo interessante? É tão fácil pegar no telemóvel e ver, tantas vezes negligenciando a realidade presente em que se está.

Mas o FOMO não é o único medo criado pelas redes sociais. A nossa aceitação começou a receber um ranking. Quanto mais likes mais populares somos. Quantos mais likes uma empresa tem, mais valor tem. Temos que criar likes para manter um perfil virtual aceitável. Nem que para isso criemos uma nova versão de nós próprios – o nosso Avatar virtual.

 

O truque dos números e o nosso Avatar

Os números regem os nossos perfis sociais e virtuais. Quanto dinheiro, quantos likes, quantos amigos, quantas coisas – temos – dita quem somos. Enquanto seres numa sociedade de consumo atribuímos muita da nossa felicidade aos números. Quanto mais (x) temos, mais felizes somos. Fazemos grande parte da nossa vida em função de obter mais. As redes sociais funcionam da mesma forma: o sucesso virtual é medido em números de likes, partilhas, comentários e seguidores. Quanto maior a audiência maior a aceitação.

Idealmente, o perfil real equiparar-se-ia ao virtual, mas não é isso que acontece – o nosso perfil virtual pode facilmente ser moldado a algo mais ideal, e digno de audiência. O nosso ego pode facilmente dar lugar a um alter ego virtual – um Avatar – que se alimenta de números atribuídos por outras pessoas. Imediatamente nos tornamos numa versão ideal de nós próprios, a melhor versão da nossa vida é a que expomos, e essa versão tem que continuar a ser projetada dessa forma, alimentada pelo feedback que recebemos dos outros.

E é precisamente aqui que surge o engano dos números – quanto mais tivermos melhor, mas podem sempre ser mais. Por isso alimentamos os números no sentido de obter sempre mais, e quando isso não acontece a nossa interpretação é que estamos a receber feedback negativo ou a receber descrédito. Uma publicação sem likes no feed de noticiais é encarada como rejeita social. O engano dos numeros está no facto de serem infinitos: podemos sempre receber mais likes e mais atenção, por isso publicamos novamente – mas como são infinitos nunca são suficientes, e nem sempre são superáveis aos anteriores.

Moldamos o nosso Avatar e as nossas publicações com vista a uma aceitação cada vez maior. No mundo online uma maior quantidade de likes dignifica o nosso Avatar – o que não se traduz em aceitação na vida real. Tudo isto contribui, sem nos apercebermos, para uma influência profunda das redes sociais na nossa mente. Alimentar um avatar virtual e uma vida real tornou-se a nova vida normal, mas trouxe silenciosamente consigo custos pesados para a nossa saúde mental.

 

Atenção profunda vs. Uma vida à velocidade de uma máquina

Tudo acontece nas redes sociais. Organizam-se eventos. Criam-se grupos de partilha e chats de grupo. Comentam-se fotos, vidas e pessoas. Partilham-se as notícias do dia e em algumas empresas comunica-se com os colegas de trabalho. As redes sociais foram concebidas para captarem a nossa atenção de forma permanente mas mais do que isso – de forma instantânea. Luzes piscam. Ecrãs acendem. É um casino de bolso.

A partir do momento em que há uma notificação surge uma nova tarefa, que nos rouba uma percentagem da atenção dedicada que temos. A responsabilidade de viver em mais do que uma realidade é de grande consumo mental – há que responder à realidade real e há que responder à realidade online, mais social e objeto de avaliação alheia e critica. Qual priorizar?

O tempo como o experienciamos tornou-se escasso e mais curto para dar tanta resposta. É exaustivo para o nosso cérebro balançar de forma equilibrada uma vida social real, uma vida nas redes sociais e uma vida profissional – os nossos tempos de resposta diminuíram e misturaram-se num malabarismo complicado – há sempre algo que fica por fazer, algo ou alguém que fica sem resposta.

Sem querer, tentamos aproximar-nos da velocidade de ação do aparelho tecnológico mais poderoso da atualidade – um Smartphone – mas não somos máquinas e não há tempo de dar resposta a tudo de forma tão instantânea quanto ela nos é apresentada. A tecnologia evoluiu tão rapidamente que é esperado que os seres humanos tenham o mesmo tempo de resposta – imediata, sem fadiga, sem análise, mais rápida que um folego ou um piscar de olhos – que uma calculadora tem a fazer um cálculo. Isso não é possível para os seres humanos atuais – mas vários sociólogos argumentam que talvez seja possível no futuro, quando a velocidade de output humano-máquina seja otimizada, e não se resuma à velocidade de teclar dos nossos polegares.

Isso deixa-nos numa posição sensível – não estamos adaptados a este nível de consumo. E isso reflete-se de forma abruta na nossa sociedade. Os números de ansiedade em adolescentes explodiram e aumentaram em todas as fases etárias. Estar permanentemente online, sobretudo na adolescência, significa estar sujeito a um escrutínio social contínuo, permanente e instantâneo, uma vez que é impossível fugir à opinião e julgamento de todos os demais. Ter um Smartphone no bolso significa nunca ter uma pausa, nunca ter um momento de verdadeira introspeção prolongada.

A nossa atenção é um recurso finito, que não se repõe instantaneamente. Temos uma determinada reserva de atenção que – idealmente – gastaríamos de forma controlada, ponderada, em atividades que nos preenchessem de felicidade, e não em surtos de felicidade breve – e viciante – que nos fazem querer voltar mais e mais. Caminhamos e agimos em stress permanente, demasiado esgotados para dedicar a nossa atenção a algo que por vezes desejamos realmente. Perdemos a nossa capacidade de permanecer em atenção profunda. Vários psicólogos apontam que a explosão recente de ansiedade – influenciada certamente por muitos outros fatores – é resultado de uma dolorosa auto análise, amplificada pela apreciação recebida nas redes sociais.

É difícil imaginar o que uma criança nascida depois de 2000 (hoje já com 18 anos) pode experienciar neste meio, uma vez que já nasceu com ele. As redes sociais só surgiram na minha geração – Millenials – por volta dos meus 18 anos, e na geração dos meus pais por volta dos seus 40 mas um jovem da geração Z já nasceu sem essa pausa. Que repercussão vai ter nas suas vidas adultas?

Os números de suicídios, depressão, ansiedade e stress não pararam de crescer nos últimos 10 anos – apesar de vivermos em países pacíficos, saudáveis e desenvolvidos. Todos estes números são indicadores de algo, e todos eles refletem uma sociedade doente. Algo se passa. Ninguém pode argumentar com certeza que seja o uso de redes sociais que contribua para isso, mas talvez uma simples experiência me permitisse ainda mais perspetiva sobre o assunto. Depois de ler sobre várias pessoas que tinham feito o mesmo, decidi experimentar eu mesmo abster-me de usar redes sociais e observar como alteraria a minha perceção do presente.

 

A minha experiência

Comecei por apagar as aplicações do meu Smartphone. Nos primeiros dias sem redes sociais senti os efeitos da privação – dava por mim a pegar no telemóvel sem me aperceber, só para ver se tinha alguma notificação. E apercebi-me de como o fazia tantas vezes – de manhã, em viagem, no trabalho, quando chegava a casa – só para ver se havia alguma notificação ou algo de novo. Sempre que havia um momento de espera na minha vida – esperar por alguém, esperar numa fila ou esperar pelo metro ou comboio – pegava no telemóvel. Apercebi-me da quantidade de vezes que o fazia durante o dia sem um verdadeiro motivo. Sempre que precisava de uma distração, por pouco necessária que fosse, pegava no telemóvel.

Foi incrível aperceber-me de como efetivamente eu tinha desenvolvido um hábito que nunca tinha adotado conscientemente. E apercebi-me também de como privar-me desse pequeno escape me trazia de volta à realidade. Eu não precisava realmente de nenhuma distração, apenas aceitava aquela porque era fácil de obter, estava mesmo ali à mão. Voltei a olhar para o que estava à minha volta quando estava aborrecido ou à espera, para as pessoas. Cheguei a esperar um comboio durante 40 minutos e a pensar no que raios fazia para me distrair antes de existirem Smartphones.

Após os dias de privação senti-me desligado, antissocial, sozinho, incontactável, que a experiência ia comprometer a minha socialização – a definição de FOMO. Mas forcei, sabendo que era uma resposta normal. E comecei a adaptar-me. Não havia realmente nada que me estivesse privado. Encontrava naturalmente outras formas de socializar, de planear e de participar. Dei por mim a pensar durante mais tempo no que gostaria de estar a fazer, ou com quem gostaria de estar a falar. Planeava o meu dia mais cuidadosamente. Quando privamos o nosso cérebro de algo, ele arranja imediatamente forma de se adaptar.

Passada uma semana sentia-me menos cansado, menos atarefado e menos stressado. Os dias pareciam-me maiores, sentia que planeava melhor o meu dia, que tinha mais tempo e que atentava mais nas pessoas com quem me relacionava, mesmo que brevemente. Dei por mim a ocupar o meu tempo de outra forma. Não me distraia tão facilmente e tinha mais foco no presente que antes.

Após duas semanas disse a mim mesmo que não sentia qualquer vontade de voltar às redes sociais, e com essa desculpa pensei em voltar para ver como me sentia – os hábitos e os vícios têm formas curiosas de operar, e enganam-nos a nós próprios.

Observei como as redes sociais nos oferecem uma possibilidade poderosa: a de ignorar o presente – e saltar para uma realidade paralela, mais ideal, que nos oferece algum consolo quando precisamos de uma distração, a qualquer momento. E o vício é tão descomunal que precisamos de distrações a praticamente todos os momentos.

Foi só após algumas semanas que experienciei algo de que também antes nunca me apercebera – era quando estava emocionalmente mais em baixo que sentia mais necessidade de consultar as redes sociais. Observei como a droga em si é consumir conteúdo. É isso que é o scolling – consumir mais e mais – cada novo scoll para cima é um pedido de mais distração. Em vez de assumir um pensamento ou um momento podemos simplesmente scrollar – e ignorar.

Quando voltei a usar as redes sociais sentia algo contraditório – nada do que ali estava realmente me interessava como antes, mas era ao mesmo interessante ver tudo com novos olhos. É difícil resistir a algo viciante. A maior conclusão que tirei foi de que era vítima de um hábito, que se tornara num vício. Não deixou de ser estranho voltar a esse vício e observá-lo em mim mesmo, depois de ler sobre o assunto, desapaixonadamente.

 

O poder do Hábito

“A diferença entre quem somos e aquilo que queremos ser é aquilo que fazemos”

Charles Duhigg

“Nós somos aquilo que fazemos repetidamente.”

Aristóteles

Dois mil anos separam ambos os ditos, mas os dois dizem o mesmo – os nossos hábitos ditam como levamos a nossa vida. As rotinas são uma das principais forças que movem e moldam a forma como vivemos, sem nos apercebermos. E um dos hábitos sociais adquiridos mais frequentes tornou-se o de pegar no Smartphone. Deixámos de fazê-lo meramente por necessidade e passámos a fazê-lo enquanto reduto e refugio.

A memória funciona como um músculo – quanto mais a treinamos, maior e mais e mais eficaz se torna na sua função. É assim que se adquire um hábito, e um vício – através da repetição. A repetição é o segredo para adquirir qualquer hábito, bom ou mau. Os processos repetidos são integrados cada vez mais profundamente no córtex cerebral. Ou seja, quanto mais repetimos algo, mais rapidamente se torna essa a resposta normal, automática. Quanto mais vezes pegamos no Smartphone em resposta a uma situação – aborrecimento, tristeza, stress, FOMO – mais automaticamente ele se torna a resposta automática a essa situação, e o vício alimenta-se a si mesmo.

Algumas pessoas que se privam ou, por algum motivo externo, não usam o telemóvel têm sintomas comuns de abstinência: tremores, irritação, alterações na disposição e comportamento, entre outros – como em abstinência de qualquer outra droga.

 

Conclusões e como equilibrar duas realidades

O desejo de consultar as redes sociais advém de um desejo humano primitivo e saudável de pertença a um grupo, e de comunicação e partilha com os outros. No entanto este desejo não é necessariamente correspondido sem verdadeiro contacto humano. Uma rede social online não é social em nenhum sentido verdadeiramente humano. É profundamente diferente comunicar com alguém através de um Smartphone ou na realidade. É profundamente diferente viver a nossa vida num ecrã.

O facto de as redes sociais representarem um escape do presente, uma distração, pode ser interpretado de duas formas:

1 – A distração é boa, momentânea, controlada e não interfere com o presente;

2 – A distração é permanente, torna-se parte da realidade ou sobrepõe-se à realidade.

Só sendo conscientes de um hábito ou vício podemos agir sobre ele. Devemos questionar se escolhemos ser distraídos, conscientemente, ou se já somos distraídos pelo vício, sem controlo. Eu apercebi-me que estava a ser distraído sem controlo consciente.

Se procurarmos realmente esta sensação de pertença num grupo social então a atenção plena, e viver o presente independentemente do contexto em que nos encontrarmos, é a solução natural. O FOMO deixa de ser real se não houver nada que sentir falta.

As redes sociais são uma das invenções mais extraordinárias da história humana. Não significa que sejam boas para nós, mas são sem dúvida extraordinárias. O problema não está nas redes sociais em si ou na aplicação verdadeira que têm – dar acesso a mais informação e disponibilizar uma rede de contactos facilitada. O problema existe quando queremos estar em todo o lado, ligados socialmente constantemente, independentemente do que estamos a fazer – o que nos limita naquilo que verdadeiramente estamos a fazer.

Devemos ainda ter em atenção que não é apenas o hábito de consumir conteúdo que nos prejudica – absorvemos o conteúdo de outras pessoas, e esse conteúdo molda o nosso pensamento, inevitavelmente, particularmente o facto de estabelecermos uma votação para todas as ações publicadas.

A vida não é perfeita. A maior parte de nós vive um plano B daquilo que realmente gostaria que fosse. E encontramos nas redes sociais uma plataforma que nos permite mostrar que vivemos o plano A, plenamente (ou como gostávamos que fosse). Eu argumento que para se ser verdadeiramente feliz há que abraçar a vida que vivemos, tal e qual como ela é, uma curva constante e crescente de tentativa e erro, sem filtros ou espelhos, vivida plenamente no momento presente.

Por isso talvez um retiro não seja má ideia… Mas não é preciso ser um mês. Tirar uma semana apenas às redes sociais já é uma experiência transformadora.

Com isso em mente, sugiro um uso mais consciente e disciplinado das redes sociais nas nossas vidas. E para isso ofereço algumas estratégias.

 

Notas

Ver? E se houvesse uma rede social que nos classifica enquanto pessoas? Uma rede social em que somos votados (de 1 a 5 estrelas) enquanto seres humanos. A série Black Mirror realizou um ensaio desta realidade no episódio Nosedive – 1º episódio da 3ª temporada.

 

Ler? Por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios Livro por Charles Duhigg

 

Fazer? Um retiro social de uma semana.

 

Ir? Não sugiro um lugar especifico. Apenas que vá algum sitio sem telemovel.

 

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